Estabelecimento da Indústria de Solar Fotovoltaica no Brasil: o que aconteceu com a estratégia proposta para desenvolver a indústria solar brasileira?
O Brasil está entre os apenas seis países no mundo que possuem um volume anual de capacidade instalada adicional acima de 10 GW. Isso significa que já nos tornamos um dos maiores mercados globais de energia solar fotovoltaica do mundo.
Essa movimentação acontece desde as décadas de 70 a 80, quando o país já possuía iniciativas importantes e de vanguarda em pesquisa e desenvolvimento em universidades e industrial. Mas foi em 2010 que o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT, atual MCTI), por meio do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), publicou o documento propositivo “Energia solar fotovoltaica no Brasil: subsídios para tomada de decisão” (CGEE, 2010), apresentando um conjunto abrangente de propostas para desenvolver a indústria fotovoltaica nacional.
Mais de uma década depois, nos perguntamos por que esse plano não decolou e se ainda é possível estabelecer uma indústria solar fotovoltaica brasileira?
É justamente essa discussão que está no centro do Guia de Diretrizes para o Estabelecimento da Indústria de Solar Fotovoltaica no Brasil com Ciência, Tecnologia e Inovação: Recomendações para uma Nova Estratégia Nacional, desenvolvido pela Revolusolar em parceria com a International Energy Initiative - IEI Brasil, com apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS).
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Em 2010, o Brasil já tinha um grande plano
Para entender o cenário atual, é preciso voltar a 2010 e ao que chamamos de Grande Plano, pois o estudo do CGEE contou com a participação e consulta de cerca de 200 representantes de diferentes setores.
O documento apresentava uma estratégia abrangente para desenvolver o mercado e a indústria solar fotovoltaica brasileira, com uma proposta estruturada em quatro grandes frentes:
1. Incentivo à pesquisa e à inovação tecnológica
Desenvolver conhecimento e capacidade tecnológica nacional para que o Brasil não fosse apenas consumidor de tecnologias produzidas em outros países.
2. Criação de mercado consumidor
Estimular a demanda por energia solar fotovoltaica e criar condições para a expansão do mercado.
3. Estabelecimento de indústrias de células solares e módulos fotovoltaicos
Criar capacidade produtiva nacional para componentes fundamentais dos sistemas fotovoltaicos.
4. Estabelecimento de indústrias de silício grau solar e grau eletrônico
Avançar em um dos elos tecnologicamente mais relevantes da cadeia, relacionado à produção do silício de alta pureza utilizado em aplicações fotovoltaicas e de microeletrônica.
A visão era de longo prazo e o objetivo não era apenas criar um mercado para produtos importados, mas estabelecer uma cadeia produtiva capaz de gerar benefícios socioeconômicos no próprio país.
O que aconteceu com esse plano?
Das quatro propostas centrais apresentadas em 2010, a criação de mercado consumidor foi a que efetivamente avançou. O mercado cresceu, mas a indústria nacional, entretanto, não se desenvolveu na mesma escala.
Essa diferença ajuda a explicar uma característica importante do setor brasileiro atualmente: temos uma enorme demanda por energia solar, mas uma cadeia produtiva ainda bastante dependente de importações.
Quando o grande plano quase decolou
Para revisar o Grande Plano, nosso novo Guia de Diretrizes para o Estabelecimento da Indústria de Solar Fotovoltaica no Brasil acompanha 3 textos de apoio: Quando o Brasil tinha um grande plano; Quando o grande plano quase decolou; e A retomada do grande plano ainda é possível.
Entre 2010 e 2014, houve um período de iniciativas e articulações que demonstraram que o Brasil tinha condições de avançar na construção de uma indústria fotovoltaica mais estratégica e um dos pontos fundamentais dessa discussão é o silício.
Segundo o estudo, o Brasil não possuía e continua sem possuir uma produção doméstica do tipo de silício utilizado na fabricação de células fotovoltaicas em escala industrial. Apesar de termos uma das maiores reservas mundiais de quartzo de qualidade, mineral utilizado para a produção de silício metálico, o material de alta pureza, silício de grau solar e silício de grau eletrônico, continuam sendo importados.
Ou seja, temos o recurso natural, mas não dominamos a tecnologia e a indústria para transformá-lo.
Por que uma indústria solar nacional importa?
A expansão da energia solar gera oportunidades de trabalho em diferentes etapas da cadeia. Segundo as estimativas apresentadas no estudo, a adição de 39,8 GW de energia solar fotovoltaica entre 2025 e 2034 poderia gerar mais de 600 mil empregos diretos e indiretos nas etapas de projeto, instalação, operação e manutenção.
E existem outras possibilidades. Caso toda a cadeia produtiva para fabricação dos módulos fosse estabelecida no Brasil, considerando uma média anual de 3,98 GW de capacidade instalada adicional, o estudo estima a criação de mais de 2.000 empregos diretos de maior qualificação nas fábricas, associada a um investimento estimado de cerca de US$ 2 bilhões.
Os números ajudam a dimensionar a diferença entre simplesmente importar equipamentos para atender ao crescimento do mercado e construir capacidade produtiva dentro do país.
O que o novo Guia propõe?
É nesse ponto que entra o estudo Estabelecimento da Indústria de Solar Fotovoltaica no Brasil com Ciência, Tecnologia e Inovação: Recomendações para uma Nova Estratégia Nacional.
Produzido pela Revolusolar e pela International Energy Initiative - IEI Brasil, o Guia parte de uma premissa: o Brasil vive um momento decisivo para o estabelecimento de uma cadeia produtiva solar mais estruturada no país.
O objetivo não é simplesmente reproduzir o plano de 2010, mas resgatá-lo, compreender seus acertos e limitações, incorporar as transformações ocorridas desde então e pensar uma nova estratégia nacional.
O Guia é acompanhado por três textos de apoio que aprofundam diferentes momentos dessa trajetória:
Texto de Apoio nº 1: Quando o Brasil tinha um grande plano (2010)
Recupera a estratégia elaborada em 2010 e suas quatro propostas centrais.
Texto de Apoio nº 2: Quando o grande plano quase decolou (2010 - 2014)
Resgata as iniciativas realizadas entre 2010 e 2014 e as condições que chegaram a criar uma oportunidade de inserção mais estratégica do Brasil na indústria solar.
Texto de Apoio nº 3: A retomada do grande plano ainda é possível
Discute as possibilidades de retomar essa agenda diante do cenário atual da energia solar, da indústria e da transição energética.
Acesse já o guia e os textos de apoio.
Uma discussão que vai além da energia solar
Para a Revolusolar, estabelecer uma indústria solar não deve ser analisado isoladamente da construção de uma transição energética justa. Pois a transição energética envolve mudanças profundas na forma como produzimos, distribuímos e consumimos energia.
Essas mudanças estão relacionadas a desigualdades sociais, ambientais e econômicas que já existem na sociedade brasileira. Por isso, uma transição energética justa precisa ser pensada de maneira articulada a outras políticas estruturantes de desenvolvimento e redução das desigualdades.
O cenário de 2026 é diferente daquele de 2010. A indústria solar global mudou e justamente por isso, olhar para o passado pode ajudar a construir uma estratégia mais adequada para o presente, visando planos de curto, médio e longo prazo.
Este artigo apresenta apenas uma parte da discussão, enquanto o Guia de Diretrizes para o Estabelecimento da Indústria de Solar Fotovoltaica no Brasil com Ciência, Tecnologia e Inovação reúne a análise completa e as recomendações para uma nova estratégia nacional, acompanhadas por três textos de apoio.
Se você trabalha com energia, política pública, indústria, ciência e tecnologia, sustentabilidade, pesquisa ou desenvolvimento econômico ou simplesmente quer entender melhor os caminhos que o Brasil pode tomar diante da expansão da energia solar, este material é um ponto de partida.
Acesse gratuitamente o Guia de Diretrizes e os três textos de apoio no site da Revolusolar.
Sobre o estudo
Guia de Diretrizes: Estabelecimento da Indústria de Solar Fotovoltaica no Brasil com Ciência, Tecnologia e Inovação - Recomendações para uma Nova Estratégia Nacional
Realização: Revolusolar + International Energy Initiative - IEI Brasil
Apoio: Instituto Clima e Sociedade (iCS)
Coordenação: Igor Felix de Souza Mello — Revolusolar
Pesquisa e redação: Rodolfo D. M. Gomes — IEI Brasil; Igor Felix de Souza Mello — Revolusolar
Entrevistas: Rodolfo D. M. Gomes — IEI Brasil
Revisão: Eduardo Avila — Revolusolar
Ano de publicação: 2026.

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