A nova fronteira da energia solar no Brasil: da expansão à economia circular

20/04/2026

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A nova fronteira da energia solar no Brasil: da expansão à economia circular

Nos últimos anos, o Brasil consolidou-se como uma potência global no setor fotovoltaico. A energia solar já ocupa a segunda posição na matriz elétrica nacional e colocou o país entre os quatro maiores mercados solares do mundo. Com mais de R$288 bilhões em investimentos acumulados, o setor também posiciona o Brasil como o terceiro maior gerador de empregos em energia solar no planeta.

No entanto, junto com esse avanço, surge um desafio que ainda recebe pouca atenção: a gestão dos resíduos fotovoltaicos. Se queremos que a transição energética justa seja verdadeiramente sustentável, precisamos olhar para todo o ciclo de vida das tecnologias que estamos expandindo.

É comum ouvir que os painéis solares possuem vida útil de 25 a 30 anos. Essa estimativa muitas vezes cria a percepção de que a questão dos resíduos ainda está distante. No entanto, nosso estudo “Economia Circular para o Setor Fotovoltaico: Recomendações para a Geração de Valor a partir de Resíduos no Brasil”, lançado em março de 2026, mostra que o desafio é muito mais imediato.

No contexto brasileiro, observamos que a maior parte dos descartes ocorre antes do fim da vida útil dos equipamentos. Essas perdas prematuras, conhecidas como early losses, são provocadas principalmente por fatores externos e operacionais.

Entre as principais causas estão:

-Eventos climáticos (48%), como tempestades, granizo e ventos extremos;

-Danos logísticos (38%), incluindo quebras durante transporte, armazenamento ou instalação;

-Incêndios (13%), geralmente associados a falhas elétricas ou acidentes.

Nossas projeções indicam que, até 2030, cerca de 77% dos painéis descartados no Brasil serão resultado dessas perdas prematuras. Isso significa que o país não pode esperar décadas para enfrentar o tema da gestão de resíduos solares.

Ao analisarmos esse cenário, também identificamos uma grande oportunidade. A transição de um modelo linear, baseado em extrair, produzir e descartar, para uma lógica de economia circular, pode transformar um desafio ambiental em uma nova cadeia de valor.

Em nosso estudo, aplicamos pela primeira vez no Brasil, no setor fotovoltaico, a metodologia SROI (Social Return on Investment), que mede o retorno social gerado por investimentos.

Os resultados mostram que para cada R$1 investido na reciclagem de painéis solares, até R$3,18 podem retornar em benefícios para a sociedade, considerando cenários otimistas.

Essa cadeia de circularidade pode gerar impactos significativos:

-Geração de empregos verdes
Estimamos a criação de um posto de trabalho para cada 20 toneladas de painéis reciclados, ampliando oportunidades em atividades de desmontagem, triagem, processamento e reaproveitamento de materiais.

-Recuperação de recursos estratégicos
Os módulos fotovoltaicos são compostos majoritariamente por vidro (aproximadamente 75%), além de alumínio (cerca de 10%), silício (4%) e metais valiosos, como prata e cobre, que podem retornar à cadeia produtiva.

-Benefícios ambientais
A reciclagem de 16 toneladas de painéis solares pode evitar a emissão de aproximadamente 13 toneladas de CO₂ equivalente e poupar 39 metros cúbicos de espaço em aterros sanitários.

Esses números mostram que a circularidade não é apenas uma solução ambiental, ela também pode fortalecer cadeias produtivas, gerar empregos e ampliar os benefícios sociais da transição energética.

Apesar desse potencial, ainda enfrentamos um desafio importante no Brasil: a ausência de um marco regulatório federal específico para resíduos fotovoltaicos.

Em 2024, os módulos solares foram retirados da obrigatoriedade de logística reversa prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos(PNRS), criando um vazio normativo em relação à logística reversa e à responsabilidade estendida do produtor.

Hoje, o avanço legislativo ocorre principalmente por meio de iniciativas estaduais. O Mato Grosso, por exemplo, destaca-se com a Lei nº 12.919/2025, considerada uma das mais avançadas do país nesse tema.

No âmbito federal, projetos de lei como o PL 3784/2023 e o PL 391/2025 buscam estabelecer diretrizes para a logística reversa de módulos fotovoltaicos.

Experiências internacionais mostram que esse caminho é possível. Na União Europeia, políticas estruturadas já consolidaram sistemas eficientes de coleta e reciclagem. Na França, por exemplo, a taxa de reciclagem de painéis solares já ultrapassa 94%.

Para nós, na Revolusolar, a expansão da energia solar precisa caminhar lado a lado com responsabilidade ambiental e justiça social.

Estruturar políticas públicas, incentivar a reciclagem, desenvolver infraestrutura e fortalecer a responsabilidade compartilhada entre fabricantes, instaladores e consumidores será essencial para garantir que o crescimento do setor seja sustentável no longo prazo.

A transição energética não termina quando um painel é instalado. Ela continua até o fim de seu ciclo de vida, e é justamente nesse ponto que a economia circular se torna a nova fronteira da energia solar no Brasil.